Privacidade infantil

Saiu no jornal Guardian desta semana que a atriz Gwyneth Paltrow colocou uma foto dela e da filha numa estação de esqui no Instagram, para seus mais de 5 milhões de seguidores. A foto mostra a mãe e filha, chamada Apple Martin, no chairlift. Algum tempo depois a filha comentou na foto algo do tipo: “Mãe nós já discutimos isso. Você não pode postar nada sem meu consentimento”. A mãe respondeu “não dá nem pra ver seu rosto!”. Apple está usando um óculos de ski que cobre bastante o rosto.

O comentário, que já foi apagado, levanta a discussão a respeito da privacidade de crianças e adolescentes na internet. Muitos pais se sentem no direito de publicar tudo sobre seus filhos, desde a imagem do ultrassom, até fotos constrangedoras dos filhos.

Alguns seguidores criticaram a filha por brigar com a mãe publicamente, outros apoiaram a decisão da Apple dizendo que a adolescente tem o direito de reclamar, já que é a imagem dela que está sendo compartilhada com milhões de pessoas.

Parece que esta será uma discussão que vamos ver mais frequentemente nos próximos anos, quando as crianças de hoje crescerem e notarem que foram super expostas pelos seus pais nas redes sociais. As crianças pequenas não têm controle sobre o que os pais publicam, mas têm o direito sobre a suas imagens. Quando crescerem, vão começar a querer ter controle sobre o que está exposto a respeito deles na internet. Será que vai chegar um dia que filhos vão entrar na justiça contra os próprios pais devido a dano à imagem?


A arte de gritar silenciosamente

Ganhei este livro recentemente, e achei interessante as colocações que o autor faz (The Art of Shouting Quietly), escrito por Pete Mosley. Ele apresenta um guia para autopromoção, especialmente focado para pessoas introvertidas ou tímidas.

Como em outros livros de autoajuda semelhantes, existem algumas páginas com exercícios onde o leitor descreve sua situação atual, ou faz alguma reflexão, por exemplo para listar as coisas que gosta de fazer, as coisas que você sabe fazer bem, e observar sua procrastinação.

É um pouco difícil ser uma pessoa quieta e reservada hoje em dia, enquanto os outros estão se promovendo em eventos e nas redes sociais.

Mas é possível ser introvertido e tímido, basta usar estas características a seu favor. O primeiro passo seria focar nos aspectos positivos ao invés de fraquezas.

Primeiro, dê tempo ao tempo, você não precisa reagir rapidamente, dar aquela resposta importante na hora. Neste momento você pode usar de reflexão e análise para chegar a uma conclusão mais adequada. Temos o direito de levar tempo. Pessoas introvertidas geralmente conseguem avaliar as situações, pesar as evidências e perseverar até conseguir uma solução adequada.

Pessoas introvertidas naturalmente falam menos e consequentemente escutam melhor as outras. Elas são determinadas e conectadas, e são também mais atentas às coisas, passo fundamental para chegar à mindfulness.

Um ponto importante é ter claro seus valores e objetivos, seja salvar o planeta, melhorar sua comunidade, fazer alguma coisa melhor, o que quer que seja. Seus valores vão facilitar criar empatia com os outros, melhorar relacionamentos, construir parcerias e permitir atingir seus objetivos.

O livro possui 162 páginas, com estes e outros temas para te ajudar a se promover e evitar os percalços enquanto procura sucesso no que faz. Um desses problemas é a chamada “síndrome do impostor”. Mesmo sendo competentes e habilidosas no que fazem, algumas pessoas se sentem uma fraude, e se convencem de que não merecem o sucesso e prestígio atingido. É preciso reconhecer o problema, observar onde ele está te prejudicando, e saber que você merece suas realizações. Talvez você precise se cercar de pessoas positivas e que te dêem suporte para ser alguém melhor.

Valorizando a lentidão

Comprei este livro há anos, onde o autor, Carl Honoré, apresenta uma celebração à vagarosidade, e introduz o pensamento Slow: Como um movimento mundial está desafiando o culto à velocidade (In Praise of Slow). Ironicamente, não tinha encontrado tempo pra ler, e só agora consegui ver do que se trata. Coloco aqui algumas das ideias apresentadas neste livro, que complementa bem o que tenho dito por aqui, que estamos ficando muito estressados com o excesso de tecnologia ao nosso redor.

O autor conta que teve a ideia do livro ao ler uma notícia dizendo que vários autores publicaram um livro de histórias infantis chamado ‘Histórias de ninar em um minuto’. Ele falava de uma coletânea de histórias clássicas que foram condensadas para serem lidas rapidamente. Com isso os pais não precisam mais gastar muito tempo com as crianças na hora delas dormirem. Apesar de parecer uma ótima ideia, na verdade é uma prova de que a vida moderna está muito rápida, e não temos tempo pra passarmos tempos relaxados com a família.

O stress causado pela pressa e necessidade de fazer tudo rápido afeta a saúde física e mental. Estamos sofrendo de hipertensão, ansiedade, insônia, depressão e várias outras sequelas do ritmo acelerado no qual nos colocamos. O autor propõe que fazer as coisas mais vagarosamente pode ser melhor, resultando em saúde melhor, trabalho melhor, negócios melhores, vida familiar melhor, exercícios melhores, culinária melhor, e sexo melhor.

É possível evitar levar a vida de modo rápido, controlador, agressivo, apressado, analítico, estressado, superficial, impaciente, ativo, e buscando a quantidade ao invés da qualidade. A lentidão proposta seria o oposto, de modo calmo, cuidadoso, receptivo, quieto, intuitivo, sem pressa, paciente, reflexivo, com qualidade ao invés de quantidade.

O autor cita diversos grupos de pessoas que sugerem a lentidão como sendo o estilo de vida adequado para combater o estresse da vida moderna. Essas recomendações vêm de pesquisadores, associações, grupos de ajuda, profissionais de saúde e também religiões. Mas ele deixa claro que não é contra o estilo de vida moderno. Ele defende um balanço, um equilíbrio entre coisas rápidas e lentas.

Um capítulo é dedicado a comida. Com tantas lanchonetes de fast food, as pessoas estão se alimentando com comida de qualidade duvidosa. Mas ao ganhar tempo, perde-se o prazer da arte culinária, e o mais importante, que é o processo de compartilhar uma refeição com outras pessoas. Pode-se apenas engolir comida para matar a fome e continuar no ritmo acelerado da vida. Ou, por outro lado, pode-se usar a hora da refeição como um momento para saborear os alimentos, e aproveitar este tempo para interagir com outras pessoas e viver bons momentos.

Outro capítulo trata de cidades, com o exemplo de pequenas cidades italianas que resolveram promover o estilo de vida slow, como slow food. Mas isso não quer dizer que estão indo contra a modernidade, mas que incentivam a tecnologia que melhora a qualidade de vida. Por exemplo, as prefeituras preferem ônibus elétricos, silenciosos e sem fumaça. Promovem também os alimentos orgânicos, produtos artesanais e feitos na região.

O autor fala ainda do corpo e mente, já que ‘mente sã, corpo são’. Tem também capítulos para a saúde e medicina, sexo, trabalho, lazer e família. O que o movimento Slow propõe é um meio caminho, juntando o estilo dos vilarejos italianos com o dinamismo da era da informação. O segredo é balanço.

Passar tempo com amigos e família não custa nada. Também se pode caminhar, cozinhar, meditar, amar, ler, almoçar na mesa ao invés de na frente da TV, e jantar sem ficar checando o celular. Evitar a pressa e a urgência é de graça.

Ao se fazer as coisas com calma, é possível aproveitar mais, e sentir mais prazer com o que fazemos na nossa vida.

Metas Diárias do Tom Daley

Ganhei este livro de uma amiga e colega de trabalho e adorei: Tom’s Daily Goals. O subtítulo promete “nunca se sinta com fome ou cansado novamente” e lista “7 passos fáceis pra viver sua melhor vida”. Tom Daley é o atleta e medalhista olímpico britânico, com medalha de Bronze em Londres’12 e Rio’16. Ele dá umas dicas realmente boas, pra saúde física e também mental. O livro é bem editado, com 220 páginas de dicas e muitas fotos, e teve a colaboração de vários profissionais como nutricionistas, treinadores, designers e escritores.

A primeira parte é sobre movimento, sobre como manter o corpo saudável com exercícios e alongamentos. Depois ele fala sobre pensamento positivo e cuidado mental, essenciais para um atleta. Ele menciona modos para melhorar o sistema imune, e dedica varias paginas a comida, com receitas, preparo e dicas. Destaque para o sorvete natural cuja base é banana, com sabores de canela, nozes ou frutas vermelhas. Depois ele dá dicas de como evitar o estresse e aumentar a resiliência.

Mas você deve estar se perguntando o porquê de um livro de receitas de um atleta estar neste site sobre tecnologia. É que no sexto capítulo ele fala sobre detox digital, um assunto que venho abordando há tempos nesse site. Semana passada postei sobre os 10 argumentos para deletar as contas nas redes sociais. E estas dicas reunidas para se desentoxicar do meio digital complementam bem este conteúdo, motivando a ter moderação no uso das redes sociais, talvez como um passo antes de sair completamente.

Pesquisas mostram que algumas pessoas checam os seus telefones celulares 200 vezes por dia, e que mantemos o celular ao alcance da mão em 95% do tempo. A nossa dependência na tecnologia não é apenas pela capacidade de facilitar nossa vida. Muitas vezes há adicção de verdade. Isso acontece porque cada vez que recebemos uma mensagem ou uma notificação, há a liberação de uma dose de dopamina. Esse neurotransmissor está ligado aos mecanismos de prazer e nos motiva a procurar mais dessas recompensas. Por isso existe uma compulsão  na busca por notificações.

Fica difícil se concentrar no trabalho, nas pessoas ao seu redor, ou nas tarefas off-line com essa competição por atenção, principalmente se você recebe muitas notificações. Sem contar o tempo que se gasta pra ler e processar a informação. Em muitos casos precisamos de agir, seja responder à mensagem, checar a foto, encaminhar o conteúdo, etc. As pessoas acabam ficando ansiosas tentando lidar com tudo isso, ou acabam não dedicando a atenção necessária, o que pode gerar culpa.

Mas como se desconectar dos nossos dispositivos? Uma alternativa é através do chamado detox digital. Por um período de tempo, seja umas horas, dias ou semanas, não use nenhuma forma de tecnologia digital, principalmente as redes sociais. Isso tem sido uma oportunidade usada para se re-engajar com o mundo e desestressar. Mesmo que possa parecer difícil no começo, os resultados são significativos. Passar um tempo longe do seu telefone vai te deixar mais descansado, presente, alerta, feliz e no fim das contas, mais produtivo.

Talvez seja hora de dar um tempo se:

  • você está sempre com o telefone na mão
  • você está sempre pensando na sua próxima foto no Instagram ou post no Facebook
  • você rola sua timeline automaticamente e sem pensar, e duas horas depois você se dá conta do tempo
  • você fica ansioso porque acha que precisa atualizar sua presença online
  • você faz alguma coisa só pra postar na rede social
  • você faz muita comparação, achando que os outros têm uma vida da mais excitante ou têm mais sucesso que você
  • você está encontrando seus amigos de verdade com menos frequência

O autor dá estas dicas práticas para que possamos fazer o nosso detox digital. Cada pessoa tem que definir seus próprios objetivos com base nos comportamentos atuais, mas estes exemplos servem de modelo e ponto de partida:

1 – defina o quanto pode

Estabeleça a quantidade máxima de tempo que pode ficar no telefone ou computador por dia. Se restringir, ao invés de banir completamente, é mais provável que você vai seguir a regra.

2 – vá devagar

Se você é muito dependente da tecnologia, comece impondo pequenos limites cada dia, e depois vá aumentando com o tempo. Isso ajudará a criar novos hábitos e facilitar o detox.

3 – mude um hábito de cada vez

Comece banindo telefones durante as refeições, depois proíba o telefone de entrar no quarto, depois se permita checar e-mail apenas a cada duas horas, depois aumente os intervalos, e por aí. Remova uma coisa de cada vez para ter resultados duradouros.

4 – diga a todos o que está fazendo

Quanto mais pessoas ficarem sabendo do seu detox, maiores as chances de você continuar nele. Quando você se compromete publicamente, tende a ter mais perseverança no que faz.

5 – não use seu telefone como despertador

Se você usar outra coisa tipo um rádio relógio tradicional ou telefone celular antigo sem internet, você evita a tentação de checar o Facebook, Instagram, Snapchat ou Twitter antes de dormir, ou no momento que você abre os olhos. Se você tem que usar o celular e não tem outra alternativa, então coloque-o no modo avião à noite e só volte a conectar pela manhã ou mais tarde.

6 – remova os e-mails completamente do seu telefone

Responder e-mails instantaneamente está cada vez mais comum, mas isso aumenta nosso nível de stress em casa e no trabalho. A gente fica achando que tem que responder imediatamente a cada mensagem importante que recebemos. Limite a possibilidade de checar e responder e-mails, acessando-os uma ou duas vezes por dia, no computador.

7 – elogie as pessoas na vida real

Quantas vezes você ‘curtiu’ coisas nas redes sociais hoje? Se habitue a elogiar as pessoas cara-a-cara.

8 – embarque em aventuras de detox digital

Uma vez por semana ou por mês, deixe seu telefone, tablet ou outro dispositivo em casa e saia em busca de aventura, seja empinado uma pipa no parque, navegando num barraco à vela, ou pedalando. Ou encontre algum lugar para passar o fim-de-semana sem Wi-Fi.

9 – controle seus aplicativos e exclua jogos

Pra reduzir a tentação de checar o telefone toda hora, personalize as preferências para que os aplicativos não mandem notificações a toda hora.

10 – faça uma pilha de telefones

Quando sair com um grupo de amigos, empilhe todos telefones no centro da mesa. O primeiro que pegar o telefone paga a conta!

O autor termina o capítulo com dicas para fazer bom uso das mídias digitais, se você resolver continuar usando. Por exemplo, pare de seguir (ou use a nova função de ‘mute’) quem não te inspira nem te motiva mais. Siga pessoas que te ajudem a atingir seus objetivos pesssoais. Interaja com as pessoas, crie vínculos com mentores, pessoas que você admira e que publiquem conteúdos que te façam uma pessoa melhor.

Veículos autônomos e a confiança dos usuários

Atualmente estou trabalhando em um projeto de pesquisa envolvendo veículos autônomos, no departamento WMG da Universidade de Warwick. A intenção é entender como as pessoas percebem os veículos em termos de confiança, facilidade de uso, importância e experiência em geral. Sabemos que pessoas diferentes têm opiniões diferentes a respeito desses veículos. Portanto  é necessário entender a real aceitação ou resistência, e os motivos por trás dessa resistência, antes de tentar introduzir estes veículos para o grande público.

Veículos autônomos apresentam várias vantagens, incluindo mais segurança, menos poluição, menos tráfego, mobilidade para pessoas com deficiência e idosos, entre outras. Mas estes benefícios vão depender do nível de automação empregado, e da quantidade de veículos autônomos em circulação.

A Sociedade de Engenheiros Automotivos dos EUA definiu cinco níveis de automação para classificar estes veículos. Explico aqui estes níveis, que são importantes para se entender como as pessoas interagem ou vão interagir com estes veículos no futuro.

Nível 0

Sem automação nenhuma. O motorista é responsável por todas as atividades necessárias para se conduzir o veículo. Este é o caso de todos automóveis mais antigos.

Nivel 1

O veículo é responsável por uma atividade, em uma dimensão apenas. O veículo controla, por exemplo, a velocidade e frenagem. Outro caso é o tipo que controla a direção para os lados, como no controle de faixa. Estes tipos de automação já existem em veículos há alguns anos.

Nivel 2

Veículos com automação de nível 2 controlam duas dimensões mesmo tempo, frontal e lateral. O veículo é capaz de definir a velocidade e a direção. Alguns carros atuais já possuem estas funções. O motorista pode tirar a mão do volante e dos pedais pois o carro controla estas funções. Entretanto, o motorista precisa estar atento ao trânsito a todo o momento, e precisa ser capaz de retomar o controle imediatamente, se necessário.

Nivel 3

Veículos autônomos de nível 3 controlam a direção, aceleração e frenagem do carro, e o motorista não precisa ficar prestando atenção ao trânsito. O veículo toma conta dos aspectos da direção e de segurança, e vai informar caso uma intervenção seja necessária. Portanto, ainda é necessário ter um motorista capaz de dirigir o carro se preciso.

Nivel 4

Automação de nível 4 é quando o veículo controla todos os aspectos da direção do veículo, e não é necessário ter um motorista, nem mesmo ter os controles como volante e pedais. Mas neste nível, os veículos andam apenas por rotas conhecidas ou pré programadas.

Nivel 5

Veículos autônomos de nivel 5 serão capazes de lidar com qualquer situação em qualquer tipo de via, sem necessidade de uma pessoa a bordo, e sem a necessidade de que a via esteja num mapa. Apesar deste nível ser o que se pode chamar de automação completa, talvez sejam necessárias várias décadas até que os sistemas sejam capazes e confiáveis para executar esse controle.

O projeto que trabalho é chamado UK Autodrive, e testamos veículos de nível 4, ou seja, totalmente autônomos quando rodam em circunstâncias e locais determinados. Uma imagem do veículo, que chamamos de ‘pod’, está publicada no topo dessa página. Esta foto eu tirei quando um desses veículos foi trazido para o simulador de tráfego da universidade de Warwick.

Os estudos que estamos conduzindo envolvem experiências com o pod, seguidas de questionários para avaliar as preferências e problemas enfrentados. Como em todo bom experimento científico, temos grupos de controle e outros grupos onde testamos variáveis. Num estudo anterior foram avaliadas interfaces diferentes para controle do veículo, e perguntamos quais eram as preferidas, e por quê. Outro estudo avaliou como o comportamento do veículo afeta a confiança, em termos da velocidade e direção. Em breve colocarei aqui informações sobre as publicações acadêmicas que surgirem deste projeto.

 

Dopamina, a droga da persuasão

O primeiro diretor do Facebook, Sean Parker, foi o cara responsável por pegar o site do Mark Zuckerberg, que era na época apenas um projeto de universitários, e transformá-lo em uma empresa real. Ele pediu demissão da empresa em 2005. Recentemente ele declarou, numa entrevista durante um evento, que a rede social foi criada para distrair os usuários, e não para uni-los. Ele acrescentou que o mecanismo é feito para consumir o máximo de tempo e atenção possível. Para conseguir isso, o Facebook explora uma vulnerabilidade da psicologia humana. Sempre que alguém curte ou comenta num post ou foto, o site fornece ao usuário uma pequena dose de dopamina. Isso acontece imediatamente dentro do cérebro, ao vermos que alguém curtiu nossa presença na internet, ajudando a aumentar nossa auto-afirmação social.

A dopamina, descoberta em 1957, é um dos 20 maiores neurotransmissores do corpo humano, que é uma substância que carrega mensagens entre os neurônios, nervos e células do corpo. Graças aos neurotransmissores é que o coração continua batendo, o pulmão respirando, e, no caso da dopamina, sabemos que temos que beber água quando estamos com sede, ou quando queremos fazer sexo e procriar. A dopamina está relacionada à recompensa que recebemos por uma ação. Ela tem a ver com o desejo, ambição, adicção e desejo sexual.

A recompensa que a dopamina nos fornece representa a base de todo aprendizado. A pessoa antecipa a recompensa que terá depois de uma ação, e se ela recebe a recompensa, isso permite que o comportamento se torne um hábito. Chocolate pode aumentar os níveis de serotonina, que é outro neurotransmissor relacionado ao prazer. Sabemos que ao comer chocolate, teremos a recompensa do sabor e o corpo vai agradecer as calorias, criando a reação, na memória, da imagem do chocolate e do prazer. Esta recompensa é ativada pela dopamina. Por isso a foto acima é capaz de criar prazer imediato, semelhante ao adicto que vê sua droga preferida.

Diversas pesquisas científicas provaram a força dos mecanismos de recompensa, que geram uma compulsão. Uma das formas para isso acontecer é criando recompensas aleatórias. Testes com cobaias ou macacos provou que, se eles não sabem quando a recompensa vai vir, ficam mais tempo tentando. Este mecanismo é o mesmo usado pelas máquinas de caça-níqueis dos cassinos.

O mecanismo de recompensa aleatória pode ser visto claramente no Instagram. Como expliquei nesta página sobre a timeline fora de ordem, o mecanismo empregado faz com que fiquemos mais tempo rolando a linha do tempo destes aplicativos, pois não sabemos quando veremos as fotos que gostamos e dos amigos que queremos ver. As empresas por trás das redes sociais exploram a dopamina para criar um ciclo vicioso compulsivo. Existem pessoas trabalhando neste momento especificamente para aumentar a dependência de dopamina nos usuários de sites. Por exemplo, o grupo do www.usedopamine.com e o www.thebehavioralscientist.com, do Jason Hreha, que tive a chance de conhecer durante a edição de 2011 da conferência Persuasive Technology.

A força do mecanismo da dopamina para alterar hábitos é bem conhecida dos viciados em drogas e os fumantes. Drogas como anfetaminas, cocaína, nicotina ou álcool afetam o sistema de dopamina, dispersando uma quantidade de dopamina muito acima do normal. O uso dessas drogas faz com que as pessoas ignorem os mecanismos de censura naturais, e quem usa drogas sabe que quanto mais se usa, mais difícil é pra parar.

A forma com que o Facebook foi desenvolvido, somada ao fado de que grande parte das pessoas usa a rede social, muda bastante nosso relacionamento com a sociedade em geral, com as outras pessoas. Sean Parker declarou que “só Deus sabe o que o Facebook está fazendo com o cérebro das crianças”.

Precisamos entender os mecanismos aplicados nos sistemas que usamos, para que possamos avaliar se estamos sendo vítimas de estratégias negativas. Entretanto, é possível usar estratégias de persuasão para formar hábitos positivos, para motivar os usuários a agirem de uma forma, a se comportarem de uma maneira que seja da intenção e iniciativa própria. É possível criar aplicativos que encorajem as pessoas a serem melhores seres humanos, e é pra isso que estudamos, trabalhamos e criamos nossos produtos e sistemas.

Este post foi inspirado e parcialmente traduzido das páginas de notícias do Guardian e Axios.

 

Conferência sobre sistemas de transporte inteligentes

Semana passada apresentei dois artigos na conferência INTSYS – Intelligent Transport Systems, que aconteceu na Finlândia. Como é de praxe nestas conferências, keynotes interessantes abrem as discussões na manhã de cada dia, e a professora Lorna Uden apresentou sua visão da necessidade de se considerar a experiência do usuário e o co-design de valor. Só depois de considerar o que os usuários gostam e o que ele valorizam é que poderemos criar sistemas inteligentes de sucesso.

Apresentação da professora Lorna Uden, mostrando ao fundo a paisagem da Finlândia no fim do outono.

Minhas apresentações foram relacionadas a dois estudos que conduzimos durante o projeto CLoSeR, um sobre criação de personas que representam passageiros de trens, e outro sobre usabilidade de telas indicativas de reserva de assentos.

Personas

Fotos de algumas das personas impressas e montadas em papelão

Personas são representações de usuários de algum produto ou serviço, e ao invés de falar do ‘usuário’ como alguém genérico, descrevemos eles através de dessas personas, que contém foto, dados demográficos, descrição das preferências, objetivos, desejos e limitações. Com isso temos uma relação muito mais pessoal com o usuário, e equipes de desenvolvimento acabam tendo uma melhor compreensão de quem vai usar os produtos e serviços.

Quatro personas foram desenvolvidas para representar os passageiros de trens e suas interações com tecnologia a bordo. Este exercício proporcionou a definição dos requerimentos adequados para estes usuários. Por exemplo, Jonathan é um homem de negócios que quer usar o trem para trabalhar a caminho de reuniões. O ideal seria que ele tivesse uma viagem sem interrupções, e ele não gosta de parar o que está fazendo para mostrar o tíquete para o cobrador. Portanto, a tecnologia proposta pode fazer com que ele mesmo se identifique ao embarcar, usando seu aplicativo de telefone, para provar que já possui um tíquete, e que está sentado no seu assento reservado.

Por outro lado Lin, que é uma senhora aposentada que usa o trem para lazer, não possui um smartphone, e gosta de conversar com o cobrador, perguntar sobre a viagem, o local de desembarque e outros detalhes para fazer com que a viagem seja mais segura e tranquila. Neste caso, Lin vai precisar do contato físico com o sistema, e o cobrador, no caso dela, é uma vantagem, ao contrário do Jonathan. Um cartão com uma ‘tag NFC’ para que ela se identifique num leitor posicionado no braço do assento pode fazer com que ela também se beneficie da tecnologia, mesmo sem possuir um telefone. Mas para isso seria necessário ter também junto ao assento uma tela que possa apresentar mais informações para ela e outros os passageiros.

Usabilidade

As duas telas usadas durante o estudo piloto de usabilidade

Um estudo foi desenvolvido para avaliar dois tipos de displays da reserva de assento em trens: os do tipo OLED e E-ink, através do design centrado no usuário. OLED são as telas geralmente pretas que se iluminam com texto ou imagens. A E-ink é o contrário: como nos e-books, o texto aparece em preto contra o fundo da tela que é geralmente branco.

Inúmeros fatores influenciam a decisão sobre qual display usar, como custo ou consumo de energia. É também importante considerar a usabilidade, por exemplo a legibilidade e as preferências do usuário. Nós desenvolvemos um estudo piloto usando entrevista com questionários semi-estruturados onde usuários interagiram com ambas telas puderam dar suas opiniões e impressões.

Os resultados mostram que os participantes preferiram a tela de OLED no geral, já que ela é mais facilmente notada em condições de luz diferentes. Entretanto, alguns aspectos da tela de E-ink foram preferidos: é mais fácil de ler e de entender o conteúdo. A conclusão é que pesquisa com usuários reais é extremamente importante durante a fase de design e definição de qual hardware se usar na implementação de sistemas de transporte inteligentes. Uma combinação dos dois displays pode ser usada, ou a adição de um LED nas cores verde e vermelha que indique, à distância, se o assento está reservado ou não.

Referências

Oliveira, L., Bradley, C., Birrell, S., Tinworth, N., Davies, A., Cain, R., 2017. Using Passenger Personas to Design Technological Innovation for the Rail Industry, in: INTSYS – Intelligent Transport Systems – From Research and Development to the Market Uptake. Springer, Helsinki, Finland (in press).

Babu, V.S., Oliveira, L., Birrell, S., Taylor, A., Cain, R., 2017. Comparison of E-ink and OLED screens as train seat displays: a user study, in: INTSYS – Intelligent Transport Systems – From Research and Development to the Market Uptake. Springer, Helsinki, Finland (in press).

Mapeando a experiência de passageiros de trens

Semana passada estive em Cincinnati, nos Estados Unidos, participando de uma conferência  onde apresentei parte do meu trabalho atual. A conferência é a IASDR (International Association of Societies of Design Research), que acontece a cada dois anos. A conferência foi sediada e organizada pela fantástica escola de design, arte, arquitetura e planejamento (DAAP) da Universidade de Cincinnati, no estado de Ohio.

O trabalho apresentado detalha um estudo que conduzimos aqui na Inglaterra para entender a experiência do usuário de trens. O projeto é uma colaboração entre universidades e empresas do Reino Unido, com o objetivo de entender a experiência de passageiros ferroviários e de identificar como o design de novas tecnologias podem melhorar estas experiências.

Viajar de trem às vezes proporciona experiências negativas aos passageiros. Novas tecnologias dão a oportunidade de criar novas interações que proporcionem experiências positivas, mas o design deve ser baseado em um entendimento sólido dos usuários e suas necessidades.

Nós conduzimos entrevistas semiestruturadas, e usamos questionários adicionais distribuídos a passageiros a bordo de trens para coletar os dados apresentados no artigo e oralmente.

Um ‘customer journey map‘ foi produzido para ilustrar as experiências dos passageiros em diversos ‘touchpoints‘ com o sistema de trens. Os aspectos positivos e negativos de cada touchpoint são plotados num mapa mostrando a trajetória de uma viagem típica, seguida de explicações que justifiquem estas avaliações. O design do mapa seguiu recomendações de profissionais da área, e um resumo do processo pode ser encontrado neste post do NN group.

Os resultados indicam como o design de inovações tecnológicas podem melhorar a experiência do usuário, principalmente nos pontos mais problemáticos, por exemplo no momento de pegar a passagem, andar até a plataforma, embarcar no trem e localizar um assento. O mapa, mostrado ao lado, pode ser visto ampliado, ou se preferir, leia o artigo completo no link abaixo (em inglês). Nós finalizamos o artigo apontando os requerimentos para que futuras inovações tecnológicas possam melhorar a experiência dos passageiros.

Imagem do mapa da jornada de passageiros de trens. Para ver em tamanho ampliado, clique na imagem.

Grande parte dos problemas que os passageiros enfrentam atualmente diz respeito à falta de informação. Por exemplo eles não sabem do nível de ocupação do trem, se este está lotado, e como está o próximo. Sensores de presença podem ser colocados nos assentos para dar uma visão em tempo real da lotação, e esses dados podem ser disponibilizados a todos passageiros online. Um aplicativo de celular pode mostrar um mapa do trem, como temos para na aviação. O app pode indicar onde a pessoa deve ficar na plataforma ao esperar o trem, para ter que andar menos no momento que o trem chega, de modo a entrar já diretamente na parte certa do vagão para alcançar os assentos vazios, ou o assento reservado. Com sensores no braço do assento, o passageiro pode escanear o tíquete eletrônico e com isso validar a passagem, numa espécie de ‘check-in’, e então o fiscal não precisará pedir para essa pessoa mostrar a passagem. O passageiro pode então viajar sem ser perturbado. O artigo pode ser lido gratuitamente no link abaixo (em inglês).

Oliveira, L., Bradley, C., Birrell, S., Davies, A., Tinworth, N., Cain, R., 2017. Understanding passengers’ experiences of train journeys to inform the design of technological innovations, in: Re: Research – the 2017 International Association of Societies of Design Research (IASDR) Conference. Cincinnati, Ohio, USA.

Por que o Instagram não mostra fotos em ordem cronológica?

O Instagram mudou recentemente o modo como as fotos são apresentadas para todos os usuários. Antes as fotos das pessoas que você segue eram mostradas em ordem cronológica, ou seja, as fotos no topo da sua ‘timeline’ eram aquelas de quem postou mais recentemente. Se você rolasse mais pra baixo, sabia que as fotos dos seus amigos iam aparecendo em ordem, e quanto mais você rolava as fotos, mais antigas elas seriam.

Mas o Instagram resolveu mudar isso. Agora as fotos são organizadas na sua timeline através de um algoritmo. Às vezes tudo parece aleatório. Pode ser que a data das fotos que você está vendo é de hoje, mas se você fecha o aplicativo e abre novamente, você vê no topo uma foto que foi postada por algum amigo há 4 dias, depois tem uma foto de hoje. Algumas vezes aparecem fotos postadas há 10 dias ou mais. Se você visita o perfil do amigo, as fotos estão em ordem cronológica, e você pergunta porque a foto de hoje ainda não apareceu para você.

A resposta curta é: assim o Instagram ganha mais dinheiro.

A resposta longa tem que ser dividida em partes:

1. O Instagram é uma empresa

Como toda empresa, o Instagram tem que conseguir dinheiro para pagar suas contas, lucrar e crescer. E ele quer faturar o máximo que conseguir. Como a maioria das empresas na Internet, o Instagram é grátis para usar, mas publica anúncios para ganhar dinheiro. Quando a gente rola a nossa timeline pra baixo ou vermos as ‘stories’, de tempos em tempos aparece uma propaganda na forma de foto ou vídeo. Estas empresas pagam para inserir estes anúncios ali, e o Instagram ganha cada vez que uma propaganda é exibida ou clicada.

2. O Instagram quer que você use role bastante a sua timeline

Fotos antigas e fora de ordem no Instagram

Para ganhar dinheiro, o Instagram tem que fazer com que você use o aplicativo por bastante tempo, e role bastante sua timeline. Com isso ele pode inserir mais anúncios entre as fotos de quem você segue. Quanto mais tempo você ficar usando o aplicativo, mais anúncios você vai ver, e com isso mais dinheiro ele vai ganhar. O ganho é de cerca de US$5 por cada 1000 visualizações. Esse valor pode parecer pouco, já que vemos alguns poucos anúncios a cada vez que usamos o aplicativo, mas multiplique isso por 800 milhões de usuários. O anunciante pode também escolher pagar apenas quando há uma interação, quando você clica no link de um anúncio.

3. Empresas perdem o controle de seu conteúdo

Antes, ao enviar uma foto ao meio dia, grifes como Hugo Boss ou Dior sabiam que os seguidores iriam ver esta foto ao abrir o aplicativo na hora do almoço. Agora, ao publicarmos uma foto, não sabemos mais quando nossos seguidores vão ver. Isso tem implicações diretas nas empresas que usam o Instagram para divulgar produtos. Como a empresa não tem mais este controle, tem que recorrer a uma saída para garantir a visualização de conteúdo: pagar por anúncios.

4. Posts fora de ordem fazem você rolar mais a timeline

As estatísticas de engajamento comprovaram que a partir do momento que a timeline por algoritmo foi implementada, a taxa de engajamento aumentou bastante. As pessoas usam mais o aplicativo, veem mais fotos e clicam em mais anúncios. E do ponto de vista comercial, é isso mesmo que eles devem fazer.

5. Engajamento não significa melhor experiência do usuário

Se você está rolando mais a sua timeline, isso não quer dizer que esteja gostando do aplicativo mais do que antes. Isso mostra é que você está procurando as fotos que você quer ver, no meio dos anúncios e de todas fotos que o Instagram quer te mostrar. Como você não sabe quais fotos vão aparecer abaixo, você rola mais. E nesse processo acaba curtindo mais fotos e interagindo com anúncios, mesmo sem saber que é tudo planejado pelo Instagram.

6. Psicologia explica por que usamos mais o Instagram aleatório

O termo acadêmico para explicar porque a timeline por algoritmo funciona é recompensa imprevisível (ou aleatória), dentre os diferentes tipos de recompensa usadas para treinar comportamentos. A recompensa imprevisível é uma das estratégias para mudança de comportamento descrita nos cartões do kit Design com Intento (página 54, na categoria Lúdica).  Esta é a mesma estratégia usada pelas máquinas de caça níquel. Você põe uma moeda, puxa a alavanca e pode ganhar ou não as moedas. Não dá pra saber quado a máquina vai dar moedas, e você acaba puxando mais vezes esperando que a próxima vai ser a sua vez de sorte.

Outro tipo é a recompensa temporal, onde após um tempo determinado, a pessoa ganha a recompensa. Nesta categoria entra o salário, pois a cada mês recebemos a quantia determinada. Este é um ganho garantido, mas sem a emoção ou a frustração de um cassino.

7. O algoritmo é baseado nos seus likes

O Instagram alega que criou o algoritmo para fazer com que você não perca as fotos de pessoas com quem interage mais. Se você curtir uma foto de um amigo, comentar, ou conversar por mensagens, vai notar que a daí em diante vão aparecer mais fotos deste amigo. E quanto mais você interage, mais prioridade essa pessoa ganha. O sistema grava as suas preferências e passa a usá-las para exibir as próximas fotos. Um problema é que quando curtimos uma foto, a pessoa fica em débito e geralmente vem curtir uma foto nossa por reciprocidade. Este é um dos princípios básicos da persuasão, bastante presente nas redes sociais.  É preciso ter cuidado para não parecer um psicopata que está obcecado com uma pessoa ao curtir várias fotos dela. O algoritmo considera outros fatores que às vezes não são o que queremos, por exemplo que novos amigos ganham mais prioridade e os amigos antigos de repente somem da sua timeline.

8. Como voltar para a timeline cronológica?

O Instagram não possui a opção para exibir as fotos na ordem correta. Elas sempre vão aparecer como for determinado pelo algoritmo. O que você pode fazer é visitar a página da pessoa e ver as fotos que quiser. Mas isso é muito trabalhoso. Outra opção seria ativar as notificações só daquelas pessoas que você quer mesmo ver. Outra saída é usar rashtags (#), se você e seus amigos usam uma rashtag específica e única, ao clicar nela, as fotos são exibidas em ordem cronológica.

PS: Numa enquete que fiz no meu Instagram (foto abaixo) perguntei: “Você está curtindo o Instagram com fotos antigas e fora de ordem?” Todos os amigos que votaram selecionaram “não”.

Imagens de 6 e 4 dias atrás sendo exibidas fora de ordem na timeline

 

Resumo do workshop: como as ferrovias contribuem para a melhoria da qualidade de vida?

No início de Agosto participei de oficinas de cooperação com pesquisadores do Brasil, que aconteceram na cidade de Joinville, Santa Catarina. Eu fui um dos 14 pesquisadores do Reino Unido selecionados, e nós nos juntamos a outros 14 do Brasil. Eu apresentei o meu trabalho com o projeto chamado CLoSeR, que busca melhorar a experiência do usuário e de trabalhadores do transporte ferroviário. Eu falei brevemente sobre os estudos que conduzimos na Universidade de Warwick, que envolveram observação de usuários, entrevistas e questionários.

As atividades do workshop envolveram a troca de experiências para desenvolvermos as soluções para os desafios apresentados. O programa foi bem intenso durante toda a semana, em tempo integral quase todos os dias, cobrindo principais temas:

  • Congestionamento – o que é e o que ele causa?
  • Transporte ferroviário de frete – como é feito no Brasil?
  • Transporte ferroviário de frete – como é feito no Reino Unido?
  • Trens de passageiros e trens de alta velocidade – situação do Brasil e planos para o futuro?
  • Trens de passageiros no Reino Unido – qual situação da linha High Speed 2?
  • Metrô e trens urbanos no Brasil – situação atual, com o exemplo de São Paulo.
  • Metrô e trens urbanos no Reino Unido – situação atual e exemplos de outros países.
  • Como o transporte ferroviário pode contribuir para melhorar a qualidade de vida?

Durante o workshop, os apresentadores falaram sobre os diversos problemas enfrentados pelo Reino Unido e pelo Brasil. Por exemplo, que o transporte férreo no Brasil tem sido sucateado e desmantelado, com algumas obras de manutenção e raramente a construção de novos trechos. O setor sofreu ao longo de décadas com falta de políticas públicas e investimento, seja por lobby de setores concorrentes ou por falta de visão de longo prazo dos dirigentes. Consequentemente, a infraestrutura foi deixada de lado até ficar obsoleta.

O transporte ferroviário pode ser definido como qualquer transporte por trilhos, sejam os dois tradicionais trilhos de metal, ou o monorail, que é um trilho apenas, ou o maglev, que é um trem que não possui rodas e levita por força magnética. Redes ferroviárias podem transportar mais passageiros, com mais segurança, mais pontualidade e menos poluição do que os métodos concorrentes.

A falta e precariedade de transporte ferroviário estão diretamente relacionadas aos congestionamentos. Cidades grandes e médias no Brasil sofrem hoje com a falta de transporte férreo, e com isso as sociedades dependem de transporte rodoviário, o que aumenta o custo do transporte, compromete a qualidade do ar e causa congestionamentos. Em recentes pesquisas, mobilidade urbana está sempre entre as maiores preocupações da população. A falta de mobilidade prejudica a qualidade de vida claramente, não só pelo trânsito em si, mas pela dificuldade de ir e vir, pela restrição à liberdade da pessoa de decidir onde morar, onde quer ir, aumenta o tempo de trajeto, apresenta custos elevados e gera estresse.

As linhas de ferro de longa distância no Brasil são usadas quase que exclusivamente para o transporte de carga. Existem apenas duas linhas de passageiros no país, a rede Vitória-Minas e a de São Luiz a Carajás. As circunstancias particulares do país fazem com que o transporte de carga tenha mais de 80% da sua capacidade dedicada a um produto apenas: o minério de ferro. Empresas mineradoras usam as principais ferrovias para desovar seus produtos em trens compostos de cerca de 250 vagões, podendo chegar a 330 vagões, como é o caso dos trens da Estrada de Ferro Carajás. A dependência a um produto apenas deixa o setor vulnerável, fato ilustrado pelas consequências do desastre de Mariana. Como a produção daquela mina foi interrompida, a empresa MRS, operadora da linha, foi forçada a usar a infraestrutura para outras cargas como containers em vagões de piso baixo.

Muitas das linhas de ferro no Brasil foram projetadas e construídas cerca de um século atrás. Portanto, elas possuem inclinações muito grandes, curvas fechadas e bitolas estreitas, fazendo com que a velocidade máxima fique restrita. Ferrovias construídas depois foram projetadas com bitolas mais largas, o que resultou em 3 sistemas diferentes em operação hoje em dia. Algumas ferrovias podem receber trens de 2 bitolas diferentes pois possuem três trilhos para receber trens cujas rodas são separadas 1 metro uma das outras, ou outros com 1,6 metro. Mas companhias operadoras de rodovias que rodam com trens de 1,6 metro não são muito receptivas a trens de bitola de 1 metro rodando na sua malha, pois estes trens são mais lentos e fazem um gargalo, atrasando todos os outros trens. Outro problema que o transporte férreo brasileiro enfrenta é o desenho da malha. A maioria das linhas corre do interior para o porto, sem interligação interna entre as linhas.

A malha ferroviária brasileira é administrada por companhias particulares, após os leilões de concessão. Com isso, todas as linhas são tratadas como negócios, e se não estão sendo lucrativas, são abandonadas. Outro problema é que cada empresa usa seu sistema próprio de sinalização. Com isso, trens de uma malha não pode rodar na outra devido a limitações de tecnologia. Às vezes, uma composição tem que trocar de locomotiva para poder continuar a viajem através da outra malha. Como as empresas operadoras das malhas são responsáveis pela manutenção, elas são relutantes a deixar outras empresas transportar cargas pesadas por suas linhas, devido ao dano causado pelo tráfego.

Participantes do workshop se reuniram para discutir possíveis soluções para estes problemas. Um deles seria pensar num sistema de transporte integrado ao invés de soluções isoladas. É preciso ter um plano central de longo prazo, uma solução integrada entre a iniciativa privada, o governo, a sociedade e instituições acadêmicas. A estrutura deveria ser gerenciada independentemente dos operadores da rede, onde uma organização toma conta da malha, e qualquer um poderia usar as linhas. Existe demanda, basta ver o volume de carga transportado por caminhões. Seria preciso investir em centros de distribuição em lugares estratégicos, que seriam definidos por pesquisas minuciosas.

Um consenso deste workshop é que o planejamento e construção de ferrovias ou metrô não podem se basear apenas no custo-benefício da obra. Projetos desta natureza geralmente acabam ficando mais caros do que planejado, mas mesmo assim, quando prontos, acabam ficando lotados de passageiros rapidamente. Exemplos deste fato são os VLT de Croydon e de Edimburgo, que recebem um interesse enorme de público, às vezes superando a capacidade. A vantagem para a população é muito maior do que o custo da obra, que deve ser considerado num plano acima do custo-benefício. Esta medida precisa levar em conta aspectos objetivos como tempo de trajeto, segurança do tráfego, segurança de passageiros, confiabilidade, pontualidade, custo por passageiro, conforto, qualidade do ar, poluição sonora, entre outros. E é necessário também levar em conta aspectos subjetivos ou indiretos, como experiência do usuário, o bem-estar, o nível de estresse, a saúde dos passageiros, etc. Se colocarmos todos estes itens na equação, fica claro que é vantajoso investir em transporte ferroviário, que pode reduzir os custos diretos e indiretos para o país e aumentar a eficiência e a capacidade produtiva em geral.

Apesar das claras vantagens, os desafios são muitos, e fazem com que seja difícil implementar (ou ressuscitar) o transporte ferroviário no Brasil, especialmente o transporte de passageiros. Qualquer projeto tem um custo muito elevado. Falta vontade política, principalmente porque é preciso pensar em longo prazo, e os nossos governantes pensam em períodos de 4 anos apenas. Resta à sociedade fazer a sua parte, exigindo medidas que solucionem os problemas de mobilidade, principalmente nos grandes centros urbanos. E aos pesquisadores, acadêmicos, engenheiros e demais especialistas na área, é preciso fazer sua parte também, produzindo pesquisas que comprovem a necessidade, viabilidade e benefícios de projetos que tragam uma maior eficiência no direito de ir e vir dos Brasileiros.

Serviço: Todos os 28 participantes foram escolhidos através de um processo de seleção com análise de currículo, publicações e carta de intenções. A organização ficou por conta da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Newcastle University, e a associação NewRail. O evento foi patrocinado pela Fapesc, Confap, British Concil e pelo Newton Fund, o que permitiu pagar passagens e hospedagens.

 

Usando computadores para melhorar o mundo