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Observando o comportamento de passageiros de trens no embarque

Ano passado selecionamos uma aluna de graduação para colaborar com o projeto que estamos trabalhando atualmente, como parte do programa de iniciação científica da Universidade de Warwick. O projeto é relacionado à experiência do usuário de trens, sejam passageiros ou pessoal de bordo, e o uso de tecnologia. Ela faz o curso de Engenharia Civil, então ficamos pensando como poderíamos integrar as duas coisas, seja para que o projeto beneficie, e que ela se beneficie também, com um trabalho que seja relevante para o curso e carreira.

Chegamos a uma proposta de projeto que envolveria o planejamento de estações de trens, e como os passageiros navegam pelo espaço, onde aguardam o trem, e como embarcam. Parte dessa ideia surgiu pelo fato de que frequentemente, alguns vagões estão mais cheios do que outros. Em alguns casos, passageiros acabam tendo que viajar em pé, mas no outro extremo do trem existem assentos vazios. Queríamos então entender as razões para esta diferença de ocupação. Portanto, poderíamos investigar a existência de um ‘embarque concentrado’.

Embarque concentrado  acontece quando passageiros de trem se congregam em determinadas áreas da plataforma de embarque, por exemplo próximo às entradas principais e escadas. Isto influencia a distribuição de passageiros pelos vagões, o que afeta negativamente o conforto dos passageiros, a segurança na interface entre a plataforma e o trem, a eficiência da rede ferroviária, e a reputação do transporte férreo como um todo.

Então o projeto teve como objetivo determinar se o embarque concentrado ocorre em estações do Reino Unido, para entender sua relevância para a construção de novos trens e da infraestrutura física nas estações.

Camera usada para filmar o movimento de passageiros na estação de Oxford, Inglaterra

Oito câmaras de vídeo foram usadas para observar os movimentos de passageiros na estação de Oxford, afixadas em diferentes partes da plataforma para filmar os movimentos doss passageiros (imagem ao lado). Dados foram coletados de nove trens. Através da análise das gravações, o número de passageiros embarcando por cada porta do trem foi determinado, e a distribuição desses dados foi mapeada ao longo da plataforma.

Passageiros embarcando no trem, na plataforma 3, estação de Oxford, Inglaterra

Como resultado, nós observamos várias tendências, por exemplo o fato de que passageiros tendem a esperar o trem logo próximo à entrada da plataforma, como foi proposto na hipótese. Consequentemente, eles embarcam pelas portas mais próximas, o que causa longas filas para o embarque. Na foto ao lado mostramos um exemplo extraído das filmagens, e na imagem no topo da página mostramos um diagrama de dois trens e o número de passageiros embarcando por cada porta em relação à entrada da estação.

Nós propomos algumas soluções para este problema, como por exemplo o uso de informação em tempo real sobre o nível de ocupação de cada vagão. Isto seria valioso para minimizar o embarque concentrado, pois permitiria aos passageiros tomar decisões conscientes a respeito de onde eles poderiam aguardar o trem para entrar pela porta com mais chances de ter assentos livres. Os resultados indicam a relevância de processos de design centrado no usuário, particularmente nas etapas de planejamento e definição de prioridades para projetos de engenharia.

A aluna finalizou o trabalho e escreveu sua monografia no fim do ano, que foi muito bem recebida pelos avaliadores. O conteúdo foi transformado em um artigo, enviado, aceito e apresentado em uma conferência. Depois, uma versão mais extensa do conteúdo foi submetida para uma edição especial de uma revista acadêmica. Para ler os artigos completos, siga o link abaixo (em inglês).

Fox, C., Oliveira, L., Kirkwood, L., Cain, R., 2017. Understanding users’ behaviours in relation to concentrated boarding: implications for rail infrastructure and technology, in: 15th International Conference on Manufacturing Research – ICMR. IOS Press, Greenwich, London, UK.

Oliveira, L.C., Fox, C., Birrell, S., Cain, R., 2019. Analysing passengers’ behaviours when boarding trains to improve rail infrastructure and technology. Robotics and Computer Integrated Manufacturing. 57, 282–291. doi:10.1016/j.rcim.2018.12.008

 

 

Mapeando a experiência de passageiros de trens

Semana passada estive em Cincinnati, nos Estados Unidos, participando de uma conferência  onde apresentei parte do meu trabalho atual. A conferência é a IASDR (International Association of Societies of Design Research), que acontece a cada dois anos. A conferência foi sediada e organizada pela fantástica escola de design, arte, arquitetura e planejamento (DAAP) da Universidade de Cincinnati, no estado de Ohio.

O trabalho apresentado detalha um estudo que conduzimos aqui na Inglaterra para entender a experiência do usuário de trens. O projeto é uma colaboração entre universidades e empresas do Reino Unido, com o objetivo de entender a experiência de passageiros ferroviários e de identificar como o design de novas tecnologias podem melhorar estas experiências.

Viajar de trem às vezes proporciona experiências negativas aos passageiros. Novas tecnologias dão a oportunidade de criar novas interações que proporcionem experiências positivas, mas o design deve ser baseado em um entendimento sólido dos usuários e suas necessidades.

Nós conduzimos entrevistas semiestruturadas, e usamos questionários adicionais distribuídos a passageiros a bordo de trens para coletar os dados apresentados no artigo e oralmente.

Um ‘customer journey map‘ foi produzido para ilustrar as experiências dos passageiros em diversos ‘touchpoints‘ com o sistema de trens. Os aspectos positivos e negativos de cada touchpoint são plotados num mapa mostrando a trajetória de uma viagem típica, seguida de explicações que justifiquem estas avaliações. O design do mapa seguiu recomendações de profissionais da área, e um resumo do processo pode ser encontrado neste post do NN group.

Os resultados indicam como o design de inovações tecnológicas podem melhorar a experiência do usuário, principalmente nos pontos mais problemáticos, por exemplo no momento de pegar a passagem, andar até a plataforma, embarcar no trem e localizar um assento. O mapa, mostrado ao lado, pode ser visto ampliado, ou se preferir, leia o artigo completo no link abaixo (em inglês). Nós finalizamos o artigo apontando os requerimentos para que futuras inovações tecnológicas possam melhorar a experiência dos passageiros.

Imagem do mapa da jornada de passageiros de trens. Para ver em tamanho ampliado, clique na imagem.

Grande parte dos problemas que os passageiros enfrentam atualmente diz respeito à falta de informação. Por exemplo eles não sabem do nível de ocupação do trem, se este está lotado, e como está o próximo. Sensores de presença podem ser colocados nos assentos para dar uma visão em tempo real da lotação, e esses dados podem ser disponibilizados a todos passageiros online. Um aplicativo de celular pode mostrar um mapa do trem, como temos para na aviação. O app pode indicar onde a pessoa deve ficar na plataforma ao esperar o trem, para ter que andar menos no momento que o trem chega, de modo a entrar já diretamente na parte certa do vagão para alcançar os assentos vazios, ou o assento reservado. Com sensores no braço do assento, o passageiro pode escanear o tíquete eletrônico e com isso validar a passagem, numa espécie de ‘check-in’, e então o fiscal não precisará pedir para essa pessoa mostrar a passagem. O passageiro pode então viajar sem ser perturbado. O artigo pode ser lido gratuitamente no link abaixo (em inglês).

Oliveira, L., Bradley, C., Birrell, S., Davies, A., Tinworth, N., Cain, R., 2017. Understanding passengers’ experiences of train journeys to inform the design of technological innovations, in: Re: Research – the 2017 International Association of Societies of Design Research (IASDR) Conference. Cincinnati, Ohio, USA.

Por que o Instagram não mostra fotos em ordem cronológica?

O Instagram mudou recentemente o modo como as fotos são apresentadas para todos os usuários. Antes as fotos das pessoas que você segue eram mostradas em ordem cronológica, ou seja, as fotos no topo da sua ‘timeline’ eram aquelas de quem postou mais recentemente. Se você rolasse mais pra baixo, sabia que as fotos dos seus amigos iam aparecendo em ordem, e quanto mais você rolava as fotos, mais antigas elas seriam.

Mas o Instagram resolveu mudar isso. Agora as fotos são organizadas na sua timeline através de um algoritmo. Às vezes tudo parece aleatório. Pode ser que a data das fotos que você está vendo é de hoje, mas se você fecha o aplicativo e abre novamente, você vê no topo uma foto que foi postada por algum amigo há 4 dias, depois tem uma foto de hoje. Algumas vezes aparecem fotos postadas há 10 dias ou mais. Se você visita o perfil do amigo, as fotos estão em ordem cronológica, e você pergunta porque a foto de hoje ainda não apareceu para você.

A resposta curta é: assim o Instagram ganha mais dinheiro.

A resposta longa tem que ser dividida em partes:

1. O Instagram é uma empresa

Como toda empresa, o Instagram tem que conseguir dinheiro para pagar suas contas, lucrar e crescer. E ele quer faturar o máximo que conseguir. Como a maioria das empresas na Internet, o Instagram é grátis para usar, mas publica anúncios para ganhar dinheiro. Quando a gente rola a nossa timeline pra baixo ou vermos as ‘stories’, de tempos em tempos aparece uma propaganda na forma de foto ou vídeo. Estas empresas pagam para inserir estes anúncios ali, e o Instagram ganha cada vez que uma propaganda é exibida ou clicada.

2. O Instagram quer que você use role bastante a sua timeline

Fotos antigas e fora de ordem no Instagram

Para ganhar dinheiro, o Instagram tem que fazer com que você use o aplicativo por bastante tempo, e role bastante sua timeline. Com isso ele pode inserir mais anúncios entre as fotos de quem você segue. Quanto mais tempo você ficar usando o aplicativo, mais anúncios você vai ver, e com isso mais dinheiro ele vai ganhar. O ganho é de cerca de US$5 por cada 1000 visualizações. Esse valor pode parecer pouco, já que vemos alguns poucos anúncios a cada vez que usamos o aplicativo, mas multiplique isso por 800 milhões de usuários. O anunciante pode também escolher pagar apenas quando há uma interação, quando você clica no link de um anúncio.

3. Empresas perdem o controle de seu conteúdo

Antes, ao enviar uma foto ao meio dia, grifes como Hugo Boss ou Dior sabiam que os seguidores iriam ver esta foto ao abrir o aplicativo na hora do almoço. Agora, ao publicarmos uma foto, não sabemos mais quando nossos seguidores vão ver. Isso tem implicações diretas nas empresas que usam o Instagram para divulgar produtos. Como a empresa não tem mais este controle, tem que recorrer a uma saída para garantir a visualização de conteúdo: pagar por anúncios.

4. Posts fora de ordem fazem você rolar mais a timeline

As estatísticas de engajamento comprovaram que a partir do momento que a timeline por algoritmo foi implementada, a taxa de engajamento aumentou bastante. As pessoas usam mais o aplicativo, veem mais fotos e clicam em mais anúncios. E do ponto de vista comercial, é isso mesmo que eles devem fazer.

5. Engajamento não significa melhor experiência do usuário

Se você está rolando mais a sua timeline, isso não quer dizer que esteja gostando do aplicativo mais do que antes. Isso mostra é que você está procurando as fotos que você quer ver, no meio dos anúncios e de todas fotos que o Instagram quer te mostrar. Como você não sabe quais fotos vão aparecer abaixo, você rola mais. E nesse processo acaba curtindo mais fotos e interagindo com anúncios, mesmo sem saber que é tudo planejado pelo Instagram.

6. Psicologia explica por que usamos mais o Instagram aleatório

O termo acadêmico para explicar porque a timeline por algoritmo funciona é recompensa imprevisível (ou aleatória), dentre os diferentes tipos de recompensa usadas para treinar comportamentos. A recompensa imprevisível é uma das estratégias para mudança de comportamento descrita nos cartões do kit Design com Intento (página 54, na categoria Lúdica).  Esta é a mesma estratégia usada pelas máquinas de caça níquel. Você põe uma moeda, puxa a alavanca e pode ganhar ou não as moedas. Não dá pra saber quado a máquina vai dar moedas, e você acaba puxando mais vezes esperando que a próxima vai ser a sua vez de sorte.

Outro tipo é a recompensa temporal, onde após um tempo determinado, a pessoa ganha a recompensa. Nesta categoria entra o salário, pois a cada mês recebemos a quantia determinada. Este é um ganho garantido, mas sem a emoção ou a frustração de um cassino.

7. O algoritmo é baseado nos seus likes

O Instagram alega que criou o algoritmo para fazer com que você não perca as fotos de pessoas com quem interage mais. Se você curtir uma foto de um amigo, comentar, ou conversar por mensagens, vai notar que a daí em diante vão aparecer mais fotos deste amigo. E quanto mais você interage, mais prioridade essa pessoa ganha. O sistema grava as suas preferências e passa a usá-las para exibir as próximas fotos. Um problema é que quando curtimos uma foto, a pessoa fica em débito e geralmente vem curtir uma foto nossa por reciprocidade. Este é um dos princípios básicos da persuasão, bastante presente nas redes sociais.  É preciso ter cuidado para não parecer um psicopata que está obcecado com uma pessoa ao curtir várias fotos dela. O algoritmo considera outros fatores que às vezes não são o que queremos, por exemplo que novos amigos ganham mais prioridade e os amigos antigos de repente somem da sua timeline.

8. Como voltar para a timeline cronológica?

O Instagram não possui a opção para exibir as fotos na ordem correta. Elas sempre vão aparecer como for determinado pelo algoritmo. O que você pode fazer é visitar a página da pessoa e ver as fotos que quiser. Mas isso é muito trabalhoso. Outra opção seria ativar as notificações só daquelas pessoas que você quer mesmo ver. Outra saída é usar rashtags (#), se você e seus amigos usam uma rashtag específica e única, ao clicar nela, as fotos são exibidas em ordem cronológica.

PS: Numa enquete que fiz no meu Instagram (foto abaixo) perguntei: “Você está curtindo o Instagram com fotos antigas e fora de ordem?” Todos os amigos que votaram selecionaram “não”.

Imagens de 6 e 4 dias atrás sendo exibidas fora de ordem na timeline

 

Resumo do workshop: como as ferrovias contribuem para a melhoria da qualidade de vida?

No início de Agosto participei de oficinas de cooperação com pesquisadores do Brasil, que aconteceram na cidade de Joinville, Santa Catarina. Eu fui um dos 14 pesquisadores do Reino Unido selecionados, e nós nos juntamos a outros 14 do Brasil. Eu apresentei o meu trabalho com o projeto chamado CLoSeR, que busca melhorar a experiência do usuário e de trabalhadores do transporte ferroviário. Eu falei brevemente sobre os estudos que conduzimos na Universidade de Warwick, que envolveram observação de usuários, entrevistas e questionários.

As atividades do workshop envolveram a troca de experiências para desenvolvermos as soluções para os desafios apresentados. O programa foi bem intenso durante toda a semana, em tempo integral quase todos os dias, cobrindo principais temas:

  • Congestionamento – o que é e o que ele causa?
  • Transporte ferroviário de frete – como é feito no Brasil?
  • Transporte ferroviário de frete – como é feito no Reino Unido?
  • Trens de passageiros e trens de alta velocidade – situação do Brasil e planos para o futuro?
  • Trens de passageiros no Reino Unido – qual situação da linha High Speed 2?
  • Metrô e trens urbanos no Brasil – situação atual, com o exemplo de São Paulo.
  • Metrô e trens urbanos no Reino Unido – situação atual e exemplos de outros países.
  • Como o transporte ferroviário pode contribuir para melhorar a qualidade de vida?

Durante o workshop, os apresentadores falaram sobre os diversos problemas enfrentados pelo Reino Unido e pelo Brasil. Por exemplo, que o transporte férreo no Brasil tem sido sucateado e desmantelado, com algumas obras de manutenção e raramente a construção de novos trechos. O setor sofreu ao longo de décadas com falta de políticas públicas e investimento, seja por lobby de setores concorrentes ou por falta de visão de longo prazo dos dirigentes. Consequentemente, a infraestrutura foi deixada de lado até ficar obsoleta.

O transporte ferroviário pode ser definido como qualquer transporte por trilhos, sejam os dois tradicionais trilhos de metal, ou o monorail, que é um trilho apenas, ou o maglev, que é um trem que não possui rodas e levita por força magnética. Redes ferroviárias podem transportar mais passageiros, com mais segurança, mais pontualidade e menos poluição do que os métodos concorrentes.

A falta e precariedade de transporte ferroviário estão diretamente relacionadas aos congestionamentos. Cidades grandes e médias no Brasil sofrem hoje com a falta de transporte férreo, e com isso as sociedades dependem de transporte rodoviário, o que aumenta o custo do transporte, compromete a qualidade do ar e causa congestionamentos. Em recentes pesquisas, mobilidade urbana está sempre entre as maiores preocupações da população. A falta de mobilidade prejudica a qualidade de vida claramente, não só pelo trânsito em si, mas pela dificuldade de ir e vir, pela restrição à liberdade da pessoa de decidir onde morar, onde quer ir, aumenta o tempo de trajeto, apresenta custos elevados e gera estresse.

As linhas de ferro de longa distância no Brasil são usadas quase que exclusivamente para o transporte de carga. Existem apenas duas linhas de passageiros no país, a rede Vitória-Minas e a de São Luiz a Carajás. As circunstancias particulares do país fazem com que o transporte de carga tenha mais de 80% da sua capacidade dedicada a um produto apenas: o minério de ferro. Empresas mineradoras usam as principais ferrovias para desovar seus produtos em trens compostos de cerca de 250 vagões, podendo chegar a 330 vagões, como é o caso dos trens da Estrada de Ferro Carajás. A dependência a um produto apenas deixa o setor vulnerável, fato ilustrado pelas consequências do desastre de Mariana. Como a produção daquela mina foi interrompida, a empresa MRS, operadora da linha, foi forçada a usar a infraestrutura para outras cargas como containers em vagões de piso baixo.

Muitas das linhas de ferro no Brasil foram projetadas e construídas cerca de um século atrás. Portanto, elas possuem inclinações muito grandes, curvas fechadas e bitolas estreitas, fazendo com que a velocidade máxima fique restrita. Ferrovias construídas depois foram projetadas com bitolas mais largas, o que resultou em 3 sistemas diferentes em operação hoje em dia. Algumas ferrovias podem receber trens de 2 bitolas diferentes pois possuem três trilhos para receber trens cujas rodas são separadas 1 metro uma das outras, ou outros com 1,6 metro. Mas companhias operadoras de rodovias que rodam com trens de 1,6 metro não são muito receptivas a trens de bitola de 1 metro rodando na sua malha, pois estes trens são mais lentos e fazem um gargalo, atrasando todos os outros trens. Outro problema que o transporte férreo brasileiro enfrenta é o desenho da malha. A maioria das linhas corre do interior para o porto, sem interligação interna entre as linhas.

A malha ferroviária brasileira é administrada por companhias particulares, após os leilões de concessão. Com isso, todas as linhas são tratadas como negócios, e se não estão sendo lucrativas, são abandonadas. Outro problema é que cada empresa usa seu sistema próprio de sinalização. Com isso, trens de uma malha não pode rodar na outra devido a limitações de tecnologia. Às vezes, uma composição tem que trocar de locomotiva para poder continuar a viajem através da outra malha. Como as empresas operadoras das malhas são responsáveis pela manutenção, elas são relutantes a deixar outras empresas transportar cargas pesadas por suas linhas, devido ao dano causado pelo tráfego.

Participantes do workshop se reuniram para discutir possíveis soluções para estes problemas. Um deles seria pensar num sistema de transporte integrado ao invés de soluções isoladas. É preciso ter um plano central de longo prazo, uma solução integrada entre a iniciativa privada, o governo, a sociedade e instituições acadêmicas. A estrutura deveria ser gerenciada independentemente dos operadores da rede, onde uma organização toma conta da malha, e qualquer um poderia usar as linhas. Existe demanda, basta ver o volume de carga transportado por caminhões. Seria preciso investir em centros de distribuição em lugares estratégicos, que seriam definidos por pesquisas minuciosas.

Um consenso deste workshop é que o planejamento e construção de ferrovias ou metrô não podem se basear apenas no custo-benefício da obra. Projetos desta natureza geralmente acabam ficando mais caros do que planejado, mas mesmo assim, quando prontos, acabam ficando lotados de passageiros rapidamente. Exemplos deste fato são os VLT de Croydon e de Edimburgo, que recebem um interesse enorme de público, às vezes superando a capacidade. A vantagem para a população é muito maior do que o custo da obra, que deve ser considerado num plano acima do custo-benefício. Esta medida precisa levar em conta aspectos objetivos como tempo de trajeto, segurança do tráfego, segurança de passageiros, confiabilidade, pontualidade, custo por passageiro, conforto, qualidade do ar, poluição sonora, entre outros. E é necessário também levar em conta aspectos subjetivos ou indiretos, como experiência do usuário, o bem-estar, o nível de estresse, a saúde dos passageiros, etc. Se colocarmos todos estes itens na equação, fica claro que é vantajoso investir em transporte ferroviário, que pode reduzir os custos diretos e indiretos para o país e aumentar a eficiência e a capacidade produtiva em geral.

Apesar das claras vantagens, os desafios são muitos, e fazem com que seja difícil implementar (ou ressuscitar) o transporte ferroviário no Brasil, especialmente o transporte de passageiros. Qualquer projeto tem um custo muito elevado. Falta vontade política, principalmente porque é preciso pensar em longo prazo, e os nossos governantes pensam em períodos de 4 anos apenas. Resta à sociedade fazer a sua parte, exigindo medidas que solucionem os problemas de mobilidade, principalmente nos grandes centros urbanos. E aos pesquisadores, acadêmicos, engenheiros e demais especialistas na área, é preciso fazer sua parte também, produzindo pesquisas que comprovem a necessidade, viabilidade e benefícios de projetos que tragam uma maior eficiência no direito de ir e vir dos Brasileiros.

Serviço: Todos os 28 participantes foram escolhidos através de um processo de seleção com análise de currículo, publicações e carta de intenções. A organização ficou por conta da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Newcastle University, e a associação NewRail. O evento foi patrocinado pela Fapesc, Confap, British Concil e pelo Newton Fund, o que permitiu pagar passagens e hospedagens.

 

14 dicas para escrever títulos chamativos que funcionam

O título de uma página é, por definição, a linha de texto que vem antes do resto. Mas na verdade ele é muito mais do que isso. Ele deve ser informativo, conter um resumo fiel do texto, em um espaço bastante pequeno. Além disso ele é a isca, a propaganda do texto em si. O mais importante, o título deve refletir o que há na matéria para não criar frustração. Um leitor frustrado dificilmente volta.

De cada 10 pessoas que acessam sites de notícias ou blogs, 8 lêem apenas os títulos, e só 2 vão ler o conteúdo. Portanto é preciso atrair a atenção do leitor, evitar que ele passe direto. Você já deve ter visto vários títulos de notícias, ou aquelas notícias relacionadas, que nos deixam super curiosos para ler mais. Os autores sabem o que atrai os leitores e exploram estas estratégias nos títulos. Eu coloco aqui umas dessas técnicas para que você possa usar também, ou pelo menos possa saber quando elas estão sendo usadas, para que você envite cair nas armadilhas dos autores. A inspiração para esta lista veio destas fontes na internet, por exemplo estas 5 dicas,  estas outras 5, ou estas 10 dicas. Uso abaixo o exemplo de um texto sobre turismo. Imagine que você tem uma lista com as melhores praias do país, e quer atrair o leitor para conhecê-las através das fotos e descrições.

1. Quanto menor melhor

O tamanho do título deve ser menor do que 65 caracteres. Se for mais longo do que isso começa a ser cortado nos resultados de busca. Em inglês, o tamanho ideal de títulos é de 6 palavras. Em português este número pode ser um pouco maior maior porque usamos mais palavras para falar a mesma coisa. Mas mantenha o título curto, quanto menor, mais fácil de reter a informação. E os leitores geralmente fazem uma leitura dinâmica dos títulos. Eles pulam palavras quando ele é muito grande, e focam na primeira e nas três últimas palavras.

2. Crie referências pessoais

Tenha alguma referência ao leitor. Títulos que incluam algo relacionado ao leitor dialoga diretamente com ele, como uma conversa pessoal. Se possível, inclua ‘você’, ‘seu’, etc. Exemplo:

Seu próximo feriado pode ser numa dessas praias

3. Use adjetivos

Quando os leitores olharem para seu título, eles vão procurar aquilo que os atraiam, como palavras que os motivem a ler o texto completo.  Você pode incluir exemplos como divertido, fácil, único, incrível, essencial, estranho, etc. Exemplo:

Conheça as casas de praia mais estranhas do Brasil

4. Use iscas tipo o que, quando, como, etc

Algumas palavras funcionam como iscas, pois indicam causa e consequência, ou ‘engatilham’ algo, ou provocam ações. Entre elas podemos citar ‘como’, ‘o que’, ‘por que’, ‘qual’, ‘quando’, etc. Estas palavras podem persuadir, ou provocar alguém a fazer algo, a tentar descobrir, a se colocar na situação citada.

Veja quais são as melhores praias do Brasil

5. Use perguntas

Além de dizer qual conteúdo o leitor vai encontrar, você pode também perguntar ao leitor o que ele sabe atualmente, para deixá-lo curioso para procurar a resposta. E mesmo que já saiba, ele pode querer ler o texto só para conferir se o artigo vai corresponder com o que ele já sabe.

Você já visitou alguma das melhores praias do Brasil?

6. Use números

Muitos títulos por aí usam números, e tem até série de livros (1001 filmes, 1001 vinhos etc) que usam essa estratégia. Quanto maior o número, mais chances do post ser compartilhado. Use dígitos ao invés de por extenso. Mas não precisa criar mais items só pra ter uma lista grande. Leitores gostam de organização, e uma lista concisa indica que existe um número certo de alguma coisa. E indica também que o autor fez alguma pesquisa para selecionar a lista, usando algum critério. E existe também a familiaridade, porque já usamos muitas listas no nosso dia a dia.

Conheça as 10 praias mais bonitas do Brasil

7. Indique um item preferido na lista.

Aumente a curiosidade do leitor, que vai querer saber qual é este item. Mas use com cuidado, se abusado, perde a eficiência.

Conheça as 10 praias mais bonitas do Brasil. A número 6 é mesmo sensacional!

8. Use palavras-chave

Use palavras-chave originais, além daquelas que já são os temas do seu site. Alguns exemplos de boas palavras-chave  são: razões, fatos, lições, dicas, idéias, maneiras, segredos, ou truques. Não use ‘coisas’!

Veja os fatos que fazem destas as 10 melhores praias do Brasil

9. Use palavras diferentes

Quando tiver uma ideia de título, veja quais palavras podem ser substituídas por outras semelhantes. Por exemplo:

Conheça as 10 praias mais belas do Brasil

Conheça as 10 praias que o turista respeita

Conheça as 10 praias que poderiam estar em propaganda de sorvete

10, Tenha autoridade

Pegue seus leitores de jeito! Mostre autoridade no que diz com uma promessa forte. Mostre autoconfiança e diga que vale a pena ler seu artigo, pois foi escrito por alguém com conhecimento no assunto.  Por exemplo: Dicas de mestre, Especialistas mostram como fazer, Faça como os profissionais.

Especialistas elegem as 10 melhores praias do Brasil

11. Faça uma promessa audaciosa.

Prometa algo valioso. Se o seu artigo vai ensinar o leitor como aprender uma nova habilidade, ou fazer algo que ele nunca fez antes, ou desvendar um mistério do passado, use isso no título. Seduza o leitor a clicar no link. Mas certifique-se de cumprir a promessa no artigo.

Conheça 10 praias maravilhosas que você nunca viu antes

12. Use sentenças no negativo

Frases no negativo usam das nossas inseguranças. Títulos com as frases ‘não’, ‘sem’, ‘pare’, etc, geram muito mais compartilhamentos.

Antes de escolher seu destino de verão, veja estas 10 praias

13. Use humor

Dependendo do conteúdo você pode usar humor, ou paixão, ou alguma outra emoção que seu texto evoque.  Esta dica é um pouco complicada pois não se pode fazer humor com tudo, e algumas emoções são inadequadas e não devemos motiva-las na internet.  Mas podemos brincar um pouco por exemplo com memes, gírias ou acontecimentos engraçados.

Saiba porque tamanho da praia não é documento.

14. Use esta fórmula

Existe esta fórmula para criar títulos, onde você combina estes elementos, não necessariamente nesta mesma ordem:

Número ou palavra isca + adjetivo + palavra chave + promessa

Promessa: conheça as melhores praias

Isca: quais são, porque

Número: 10

Adjetivo: bonitas, desertas, preservadas

Palavras-chave: fatos, razões, segredos

Resultado:

Conheça quais são as praias mais bonitas do Brasil

Veja porque estas foram eleitas as melhores praias do Brasil

Desvendamos os segredos das 10 praias mais bem preservadas do Brasil

Orientação de alunos de mestrado

Uma das atividades que faço aqui na universidade de Warwick é supervisão de alunos de mestrado, e também de alguns projetos de graduação. Este ano orientei ou estou orientando três alunos de mestrado e dois de graduação em projetos diversos.

Um deles é diretamente ligado à experiência do usuário, estudando como um sistema baseado em tecnologias móveis pode solucionar problemas psicológicos e de falta de comunicação no mundo real. Esta aluna está estudando o caso de famílias na China onde a estrutura social obriga que o pai trabalhe muito, usando a família como hotel. A mãe cuida da casa e do único filho ou filha, ficando muito apegada. Ela introduz o conceito do simbiose nas relações, que é o termo da biologia para caracterizar relações onde geralmente dois organismos vivem juntos, onde um ou ambos se beneficiam. Nas relações familiares, isso é o que acontece quando a criança tem menos de 6 meses de idade. Mãe e filho são como um ser só. Mas quando a criança cresce e permanece vivendo uma simbiose, a relação não será saudável, podendo causar diversos problemas psicológicos. Esta aluna verificou a possibilidade de usar aplicativos de celular para ajustar as relações, seja pra aproximar estes membros distantes (pais, esposa e filho), ou para desapega-los (mãe e filho). Ela pretende fazer isso com o intermédio de psicólogos, com cursos online, para aumentar a auto estima e promover as habilidades de comunicação de todos.

Tela do jogo Onmyoji. Fonte: 2P, link na imagem

Um outro projeto envolve análise de tecnologia persuasiva na forma de jogos. Esta aluna usou o jogo Onmyoji como estudo de caso, para entender as estratégias que fazem este ser um jogo extremamente rentável no mercado chinês. Jogadores gastam centenas de libras comprando elementos no jogo, que farão seu avatar ganhar poderes para conseguir evoluir no jogo.

Caracteres do jogo Onmyoji

Esta aluna tem experiência própria, ela mesma se viu gastando bastante dinheiro no jogo. Este foi um dos motivos que a fez escolher este tema. Ela pretende listar recomendações para desenvolvedores fazerem jogos que atraem as pessoas. Mas um objetivo adicional bastante útil é que ela também quer dar recomendações para que jogadores entendam as estratégias persuasivas empregadas nos jogos, e com isso possam se proteger e não cair nas armadilhas existentes.

Além da orientação, meu trabalho também envolve a avaliação das dissertações e o exame oral, onde o aluno tem que apresentar o trabalho e responder a perguntas. A foto acima mostra as dissertações que estou lendo estes dias, para o exame que acontece geralmente em uma ou duas semanas depois da submissão.

Evento para engajamento público: veículos autônomos

Es­ta semana ajudei a organizar um evento de extensão para engajamento público, como uma iniciativa para interagir com a população em geral e obter opiniões sobre temas complexos. Fui também o fotógrafo do evento, e compartilho algumas das imagens abaixo.

O assunto foi veículos autônomos, explorando aspectos como confiança, segurança de dados, meio ambiente, percepção de marcas, ética, interação social, economia e emprego. A localização foi o Museu do Transporte, em Coventry, cidade considerada o berço da indústria automobilística. A organização ficou por conta do grupo de Experiential Engineering, do qual faço parte, da Universidade de Warwick, com participação da Universidade de Coventry e o Departamento de Transporte do West Midlands.

O evento iniciou com breve apresentações e um vídeo introduzindo veículos autônomos (acima). Por definição, veículos autônomos são aqueles onde o carro dirige sozinho, e não requer um motorista ao volante. Espera-se que o carro tome as decisões certas no momento certo, tornando o transporte mais seguro, mais eficiente, e permitindo que passageiros foquem nas coisas que importam ao invés do trânsito.

Os participantes eram cerca de 40 pessoas de diversos perfis demográficos. Tinham jovens, idosos, mulheres, homens, pessoas com mobilidade reduzida, deficientes visuais, leigos e especialistas em veículos autônomos. No início do evento, pedimos a todos para colocar numa escala a opinião inicial com relação a veículos autônomos, de “uma má ideia” a “uma ótima idéia”. No fim do evento repetimos o exercício, para ver se as opiniões mudaram depois de debater o assunto com os pessoas.

Adicionando post-its com opiniões sobre veículos autônomos

Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em grupos para discutir os temas propostos. Cada mesa tinha um moderador que propunha os temas e instigava a participação, ajudada por recortes de notícias fictícias de um futuro com veículos autônomos. Todos participantes colocavam suas ideias e opiniões em post-its, e o mediador apresentava um resumo das opiniões positivas e negativas ao fim de cada sessão. Todos post-its foram então colocados numa parede, separados por temas, para que as pessoas lessem e adicionassem suas opiniões a qualquer tempo.

Participantes do evento posicionados de acordo com a opinião, de ‘preocupado’ a ‘empolgado’.

Uma das estratégias introduzidas para motivar a interação e debate entre todos participantes foi a declaração de opiniões numa escala humana. Uma fita adesiva colorida foi colocada no chão de um lado ao outro da sala. A seguinte declaração foi colocada: “Veículos autônomos me deixam…” De um lado estava “muito preocupado”, e do outro “muito empolgado”. Participantes foram convidados a de posicionar nesta escala de acordo com suas opiniões. O resultado foi fantástico, e foi até difícil de fazer as pessoas pararem de falar, discutir e defender suas opiniões quando o tempo acabou.

As discussões incluíram as questões éticas sobre a vida: já que um veículo autônomo vai tomar decisões no trânsito, quais decisões ele deve tomar no caso de risco de vida? Por exemplo, se uma pessoa atravessa na frente do carro e não há tempo para frear, o veículo deve seguir reto e matar o pedestre, ou deve virar para o muro, com chandes de matar o ocupante? Ou se o veículo perde os freios e está indo em direção a 3 pedestres , que são todas mulheres atravessando na faixa, o veículo deve seguir em frente e matá-las, ou virar para a outra faixa e matar 3 homens atravessando na outra faixa? Estas e outras questões são debatidas na ferramenta Moral Machine (Máquina moral), criada pelo MIT, que, em forma de jogo, nos permite fazer estas escolhas e comparar com as opções de outras pessoas.

Outras discussões incluíram as preocupações com relação a privacidade e segurança de dados: se computadores acabam sendo infectados por vírus, se nossos dados como emails e senhas vazam, o que garante que o mesmo não vai acontecer com carros?

Para que carros possam rodar sem motorista pelas ruas, será preciso muitos ajustes na infraestrutura. Sinais de trânsito precisarão conversar com os carros para informar a hora de ir. Mas quem vai pagar a conta dessa modernização de todos sinais de trânsito, se não são todos que querem usar veículos autônomos?

Podemos confiar na tecnologia para tomar decisões por nós, e tomar decisões para toda sociedade? Será que um sistema que procura o bem comum será bem aceito na nossa sociedade individualista? Se uma rua está engarrafada, o sistema pode guiar alguns carros para uma rota alternativa, que está livre mas é mais estreita. Mas não pode fazer isso para todos os carros, pois vai fazer esta rota vai ficar engarrafada também. Portanto, quais carros o sistema deve priorizar para indicar a rota melhor?

Outras questões incluíram o impacto na sociedade. Certamente os veículos autônomos podem aumentar a mobilidade de pessoas e beneficiar por exemplo idosos e deficientes. Mas já que não há motorista, quem ajudará estes passageiros a entrar no carro? Caso tenham uma mala pesada, ou estejam com muitas compras, o problema de mobilidade ainda existe.

 

Este evento foi um excelente exemplo de atividade de extensão, já que ajudou a levar o debate sobre veículos autônomos para a sociedade, fomentar a discussão nas mídias sociais, aumentar o impacto de pesquisas acadêmicas, e produzir dados para um doutorado em engenharia, em andamento por Arun Ulahannan.

Veja abaixo fotos extras do evento.

Curso de Percepção de Qualidade em Carros de Luxo

Estes dias colaborei como professor num módulo para estudantes de mestrado na Universidade de Warwick, num curso de uma semana chamado ‘Qualidade Percebida’. Com este módulo, os alunos aprenderam os critérios para avaliar a qualidade de veículos ‘premium’, e viram como entender esta avaliação, que é bastante subjetiva, pelo ponto de vista dos clientes. Os alunos eram funcionários da Jaguar Land Rover em vários níveis, mas quase todos eram engenheiros. Eu fui o responsável por quatro aulas, e outras quatro em parceria com minha supervisora Rebecca Cain. As aulas eram alternadas com outros 12 professores neste curso de uma semana em tempo integral.

Curso Percepção de Qualidade para alunos de mestrado

O conteúdo das minhas aulas foi dividido em três partes e envolveu, na primeira, design centrado no usuário. Apresentei teorias e exemplos de design de produto, serviços e sistemas que podem funcionar para mudança de comportamento. O foco foi na necessidade de entender o usuário do objeto de design, suas necessidades, preferências, características e limitações. A segunda parte envolveu técnicas para obter dados dos usuários, onde apresentei métodos de pesquisa como entrevistas, escalas, observação ‘no campo’, observação em laboratório, observação não-intrusiva, e pesquisas online. Cada método foi ilustrado com exemplos de aplicação e visualização de dados. A terceira parte foi onde apresentei como estes dados podem ser transformados em ferramentas concretas de design. Entre as ferramentas usadas, descrevi personas, que são representações de usuários através de alguns personagens fictícios, mas com foto, descrição, características, etc, que os fazem parecer reais e podem ajudar na ‘empatia’ com o usuário. Outra ferramenta foi o mapa da experiência (ou jornada) de usuário (customer journey maps), onde representamos como o usuário interage com os diversos pontos de contato com o sistema ao longo do tempo. Durante o curso, apresentei exemplos reais das personas e dos mapas que criei nos projetos recentes.

Mapa da experiência do usuário, no caso o processo de abastecer o carro, mostrando diversos pontos de interação onde a experiência é ruim e boa

Creio que este módulo foi bastante interessante, onde os alunos puderam ver em um curto espaço de tempo todo o processo de design, desde a teoria de design de interação, a coleta de dados e o uso desses dados em ferramentas de design, e finalmente vendo como essas ferramentas podem ajudar concretamente no design de produtos e serviços para que estes supram as necessidades dos usuários. E foi importante para os engenheiros verem que é fundamental levar em consideração a opinião dos usuários dos produtos, ao invés de criar tudo como se fosse para si próprio.

Powerwall – visualizando CAD de uma Range Rover em grande formato

A primeira e a terceira aula tiveram uma parte de workshop onde os participantes puderam discutir em grupos e praticar o que aprenderam. Na primeira, eles praticaram como fazer o design de produtos interativos em protótipos em papel, e no final fizeram mapas da jornada do consumidor para atividades relacionadas com automóveis, como abastecer o carro ou estacionar num shopping center.

Qualidade de material – avaliação de revestimento interior de veículo

Outras aulas, ministradas por outros professores, envolveram por exemplo a avaliação de diversos tipos de revestimento interno de veículos como couro legítimo, couro sintético, camurça ecológica, entre outros. Os alunos tinham que adivinhar qual era o tipo de acabamento pelo toque, e dizer qual parecia mais luxuoso.

Esquema 2D de um Jaguar, para que os alunos pratiquem o alinhamento das diferentes peças externas e entender a dificuldade de posicionamento em veículos de design complexo

Outra atividade foi um desafio para fazer o alinhamento as partes exteriores num esquema 2D dos veículos em miniatura (um Jaguar e uma Land Rover). Não foi tão fácil quanto parece, pois era preciso manter todas as peças alinhadas e com a mesma distância entre elas, e é necessário uma estratégia para escolher qual peça alinhar primeiro para finalizar o desafio em menos tempo.

Outras aulas, ministradas por outros professores, envolveram por exemplo:

  • A avaliação do design via CAD num powerwall, que é uma parede com projetor de alta definição para vermos os modelos em tamanho grande.
  • Avaliação de imagens de detalhes de veículos, comparando duas opções para saber qual é a mais sofisticada
  • A Iluminação ambiente, que é como carros de luxo estão usando luzes e cores para criar ambientes agradáveis para os clientes
  • Controle ótico da qualidade da pintura, com uso de um espectrômetro, bastante útil para avaliação de pinturas complexas como as metálicas e peroladas
  • Soundscape, que é o estudo dos sons, e aplicando ao mercado automobilístico podemos ver como percebemos a qualidade de um carro pelo barulho do motor, ou pelo silêncio do interior.

Jaguar F-pace, Mercedes GLE, BMW X1, Volvo XC90 sendo avaliados durante o curso

A atividade final foi a avaliação do exterior e interior de 5 carros de luxo, aplicando os conceitos aprendidos nos exercícios anteriores. Os carros eram: Jaguar F-pace, Mercedes GLE, BMW X1, Volvo XC90 e Toyota Landcruiser. Os materiais, as texturas, as cores, iluminação, os distanciamentos e nivelamentos entre as partes que compõe o exterior e interior de um carro de luxo foram avaliadas nos menores detalhes.

Técnicas avançadas para entrevistas

Observar o que os usuários fazem é fundamental no marketing, design e qualquer outra disciplina que lide com pessoas. Mas para entender realmente a experiência do usuário, é preciso perguntar para ele ou ela como se sentem, o que gostam e o que não gostam. E para perguntarmos, precisamos de elaborar um questionário, que pode ser do tipo ‘survey’, colocado online, impresso, ou podemos também perguntar pessoalmente.

Uma das técnicas mais antigas e mais usadas para entender os usuários é a entrevista cara-a-cara. E mesmo neste método, existem variações. Se você seguir um questionário à risca, terá respostas consistentes e estruturadas. Ou se preferir, pode usar um questionário semi-estruturado, onde você tem as questões básicas, e com liberdade para extrapolar um pouco. Com isso você pode obter respostas mais ricas e mais interessantes. Mas alguns dos efeitos negativos é que você vai levar mais tempo na entrevista e ter mais trabalho para analisar as respostas.

Um dos métodos para conduzir entrevistas semi-estruturadas chama-se ‘laddering’, ou ‘escada’. Ele tem esse nome porque você pega uma resposta do seu entrevistado e faz uma nova pergunta sobre aquilo que ele falou. A cada nova pergunta, você sobe um degrau, indo a níveis mais detalhados, chegando ao núcleo das motivações do usuário.

Os primeiros níveis são os atributos (A) gerais. O segundo nível são as consequências (C) e o terceiro nível são os valores (V) que os usuários têm a respeito do produto, serviço ou o que quer que seja que você estiver investigando.

Por exemplo, considere que você esteja fazendo uma pesquisa de marketing para desenvolver uma nova batata frita1, ou definir a estratégia para uma campanha de propaganda e marketing para seu cliente. Seu entrevistado fala:

Eu gosto da batata com sabor

Esta é uma resposta interessante, te dá informação sobre o atributo daquela batata (o sabor da batata é bom para este consumidor). Mas você pode explorar mais. Por exemplo, você pode perguntar por quê. Aí o consumidor responde:

Ela tem um sabor forte

Ótimo, você recebeu mais um atributo do produto, mas você pode explorar mais, subindo outros degraus da ‘escada’, com outros porquês. Por exemplo: Por que uma batata com sabor forte é melhor?

Porque assim eu como menos.

Agora você obteve a primeira consequência das respostas anteriores. Uma batata com sabor forte pode fazer o consumidor comer menos. Você pode perguntar: Por que comer menos é melhor?

Porque se eu comer menos eu não engordo.

Seu entrevistado te deu outra consequência, que por um lado pode ser negativa para a empresa, que vai vender menos da batata com sabor. Mas este detalhe parece que é fundamental para o consumidor. Você pode explorar ele um pouco mais: Por que você não quer engordar?

Porque eu quero ficar em forma.

Aqui você começou a entender que os atributos do produto têm consequências, e estas consequências afetam os valores que cada um possui. Você pode, para finalizar, explorar isso um pouco mais, perguntando: Por que você quer ter uma boa forma?

Porque isso afeta minha auto-estima.

Aqui você talvez tenha chegado no topo da escada, quando você chega no núcleo do valor, da crença, da motivação psicológica do entrevistado. Esta informação só foi obtida graças à utilização de um questionário semi-estruturado e usando a técnica da escada. Ao chegar aos valores psicológicos do consumidor, pode-se desenvolver produtos ou campanhas muito mais adequadas. E é fácil notar que o desejo de ficar em forma e o desejo de manter a auto-estima são detalhes muito mais importantes do que apenas saber que o consumidor prefere a batata com sabor. Uma campanha publicitária dizendo que a batata com sabor é gostosa talvez não convença muita gente. mas uma campanha vendendo o estilo de vida saudável, pessoas em forma e com boa auto-estima que comem esta batata, provavelmente terá muito mais sucesso.

Mas para executar este método de entrevista é preciso contar com entrevistadores que conheçam a técnica, sejam treinados para explorá-la, e que consigam se adaptar rapidamente ao que o entrevistador fala. Se o entrevistador não sabe direito como executar este método, pode acabar obtendo dados inconsistentes, ou pior, acabar por irritar ou aborrecer o entrevistado.

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1 Exemplo originalmente dado por:

1. Reynolds, Thomas J. Gutman, Jonathan. 1988. Laddering theory, method, analysis and Interpretation. Journal of Advertising Research 28: 11–31.

Design de Experiência

Experiência do usuário é um conceito que está sendo bastante usado atualmente. De acordo com Marc Hassenzahl no seu livro “Experience Design: Technology for All the Right Reasons”1, uma experiência é um episódio, um pedaço de tempo que alguém viveu – vendo, ouvindo, sentindo e pensando, com motivos e ações. Uma experiência é uma estória, surgindo do diálogo de uma pessoa com o mundo através de suas ações. Experiência do usuário foca em produtos interativos que são como criadores, facilitadores e mediadores de experiência.

Quando projetamos produtos interativos pensando na experiência do usuário, podemos explorar maneiras de criar e moldar experiências através desses produtos. Sabemos que não é garantido que o Design de Experiências vai atingir os objetivos, pois cada pessoa vai vivenciar experiências diferentemente. Mas podemos aumentar as chances de uma determinada experiência acontecer através de aplicação do conhecimento já disponível sobre experiência no design de produtos interativos.

Propriedades cruciais da experiência

Marc continua seu livro apresentando diversos modos de definir uma experiência:

Experiência é subjectiva. O truque é entender melhor os processos psicológicos por trás do que chamamos experiência, o que faz com que os aspectos concretos que interagimos se tornem experiências subjetivas.

Experiência é holística. Ela envolve percepção, ação, motivação e cognição. Para fazer o Design de Experiência precisamos levar a sério todos os níveis de necessidades dos usuários e satisfazê-las através do design.

Experiências são situadas. Elas são um diálogo com o mundo e acontecem em um determinado lugar e num tempo específico. Mas como o tempo e nossas percepções do mundo estão sempre mudando, sempre teremos experiências novas e diferentes, nenhuma experiência vai ser igual a outra. Entretanto, existem os ‘padrões de experiência’. Designers devem conhecê-los, e avaliar como eles podem ser levados em conta e incorporados em novos designs.

Experiência é dinâmica, variável com o tempo. A ordem, o momento, e a saliência de um simples momento impacta na experiência geral. A ordem e o momento podem ser manipulados, então são estratégias importantes pro design, na tentativa de fazer uma experiência melhor ou pior. Então, o Design de Experiência implica em um cuidadoso sequenciamento da interação. O julgamento da qualidade de um produto ou serviço é fortemente influenciado pelas mudanças percebidas numa sequência de experiências.

Experiências planejadas devem ser sempre positivas. Ou, pelo menos, devem valer a pena e serem valiosas. Uma experiência negativa pode valer a pena quando permite um outro aspecto positivo, por exemplo quando se aprende alguma coisa.

As boas razões para considerar Experiência

Tecnologia está em todo lugar nas nossas vidas, facilitando, criando, e mediando experiências pessoais significativas. Ao criar experiências devemos ter sempre em mente o poder que a interação tem de nos alegrar, e energizar nossos comportamentos. Tecnologia precisa ser criada objetivando essas experiências.

As experiências positivas que vivenciamos são capazes de aumentar nosso bem-estar, muito mais do que qualquer bem material. Tecnologia criada para gerar estas experiências também nos dá esse poder. Não é o poder do processador ou o exterior em alumínio que conta, o valor não está no material mas nas experiências fornecidas.

Às vezes interagimos com tecnologia apenas para curtir as experiências significativas ou para eliminar o sentimento de falta de alguma coisa, quanto nos sentimos sós, inseguros, our sem valor. Tecnologia que cria experiências positivas se torna motivante.

Um modelo de experiência

Apesar das experiências serem únicas para cada indivíduo, tempo, espaço, contexto e cenário, elas compartilham um núcleo definidor único: elas são todas relacionadas aos desejos e às necessidades psicológicas básicas. Estas necessidades são importantes constituintes da experiência. Entre elas estão o desejo por competência, estimulação, proximidade, autonomia, popularidade, significado, segurança e superação física. É o ato de suprir essas necessidades que criam emoções e significado na interação com um produto. É importante identificar quais desejos e necessidades estão mais em alta, e quais já estão saturados entre os usuários. Entretanto, o desafio real para o designer de experiência é suprir estas necessidades sem deixar isso ficar muito óbvio.

Reflexões sobre o Design de Experiência

O Design de Experiência não é mais o design de produtos mas das experiências que esses produtos fornecem. Isso requer uma perspectiva mais ampla, com o suprimento das necessidades psicológicas, que criam significado e emoção, como o objetivo primordial do design.

Designers de experiência sugerem um comportamento que supre uma necessidade através de um produto interativo, portanto querendo criar uma experiência significativa. Consequentemente a defesa básica do Design de Experiência é que precisa criar experiências antes de produtos. É mais do que apenas adicionar algo às funcionalidades centrais pra fazê-lo mais interessante ou bonito. Todos aspectos do produto, sua funcionalidade, conteúdo, apresentação e interação, devem estar alinhadas com a experiência a ser projetada.

Padrões de experiência são maneiras comuns de apresentar as interações, como uma maneira de contar uma história usando um produto. Eles pretendem reduzir a distância entre as necessidades e a experiência específica de um produto. Padrões de experiência pretendem condensar experiências positivas aparentemente complexas em um conjunto reduzido de padrões que podem inspirar o design. Estou no processo de projetar estes padrões, em cartões para facilitar o uso, e em breve publico aqui. Se quiser saber mais sobre eles entre em contato.

1 Hassenzahl, M., 2010. Experience Design: Technology for All the Right Reasons, Synthesis Lectures on Human-Centered Informatics. Morgan & Claypool Publishers. doi:10.2200/S00261ED1V01Y201003HCI008